possível que sempre tenha havido “neuroses”. Mas as “neuroses” que vemos hoje
por toda parte são uma forma histórica específica de conflito que precisa de
uma elucidação psicogenética e sociogenética.
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+### Estágios
+
+ No estágio da aristocracia de corte, as restrições impostas às inclinações e
+ emoções baseavam-se principalmente em consideração e respeito devidos a outras
+ pessoas e, acima de tudo, aos superiores sociais. No estágio subsequente, a
+ renúncia e o controle de impulsos são muito menos determinados por pessoas
+ particulares. Expressadas provisória e aproximativamente, nesse instante, mais
+ diretamente do que antes, são as compulsões menos visíveis e mais impessoais da
+ interdependência social, a divisão do trabalho, o mercado, a competição, que
+ impõem restrições e controle aos impulsos e emoções. São essas pressões, e os
+ correspondentes tipos de explicação e condicionamento acima mencionados, que
+ fazem parecer que o comportamento socialmente desejável seja gerado
+ voluntariamente pelo próprio indivíduo, por sua própria iniciativa. Isto se
+ aplica à regulação e às restrições de impulsos necessárias ao “trabalho”, e
+ também a todo padrão de acordo com o qual eles são modelados nas sociedades
+ industrializadas burguesas.
+
+ [...]
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+ Em ambos os casos, na sociedade aristocrática da corte e nas sociedades
+ burguesas dos séculos XIX e XX, as classes superiores são socialmente
+ controladas em escala particularmente alta. O papel fundamental desempenhado
+ por essa crescente dependência das classes superiores, como mola propulsora da
+ civilização, será demonstrado adiante.
+
+ [...]
+
+ Tabus e restrições de vários tipos acompanham a expectoração de catarro, como
+ de outras funções corporais, em muitas sociedades, tanto “primitivas” como
+ “civilizadas”. O que as distingue é o fato de que, nas primeiras, eles são
+ sempre mantidos por medo de outras pessoas, ou seres, mesmo que imaginários —
+ isto é, por controles externos — ao passo que, nas últimas, são transformados
+ mais ou menos completamente em controles internos. As tendências proibidas (por
+ exemplo, a tendência para escarrar) desaparecem em parte da consciência, sob
+ pressão desse controle interno, ou, como poderia ser também chamado, do
+ superego e do “hábito de previsão”. O que sobra na consciência como motivação
+ da ansiedade é alguma consideração de longo prazo. Assim, em nossa época o medo
+ de escarrar, e os sentimentos de vergonha e repugnância nos quais isto se
+ expressa, concentram-se na ideia mais precisamente definida e logicamente
+ compreensível de certas doenças e suas “causas”, e não em torno da imagem de
+ influências mágicas, deuses, espíritos, ou demônios. Mas a série de exemplos
+ mostra também com grande clareza que a compreensão racional das origens de
+ certas doenças, do perigo do esputo como transmissor, não é a causa primária do
+ medo e da repugnância nem a mola propulsora da civilização, a força por trás
+ das mudanças no comportamento no tocante ao hábito de escarrar.
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+ [...]
+
+ Vale a pena deixar esclarecido, de uma vez por todas, que algo que sabemos ser
+ prejudicial à saúde de maneira alguma desperta necessariamente sentimentos de
+ desagrado ou vergonha. E, reciprocamente, algo que desperta esses sentimentos
+ não tem que ser prejudicial à saúde. Alguém que coma hoje barulhentamente ou
+ com as mãos provoca profundo desagrado, mas sem que haja o menor receio pela
+ saúde. E nem a ideia de ler com má iluminação nem a de gás venenoso, por
+ exemplo, despertam sentimentos de desagrado ou vergonha remotamente
+ semelhantes, embora sejam óbvias suas más consequências para a saúde. Desta
+ maneira, o nojo da expectoração, e os tabus que a cercam, aumentam muito antes
+ que as pessoas tenham uma ideia clara da transmissão de certas doenças pelo
+ escarro. O que inicialmente prova e agrava os sentimentos de nojo e as
+ restrições é a transformação das relações e dependência humanas.
+
+ [...]
+
+ A motivação fundada na consideração social surge muito antes da motivação por
+ conhecimento científico. O rei, como “sinal de respeito”, exige esse
+ comportamento de seus cortesãos. Nos círculos da corte, este sinal da
+ dependência em que ela vive, a crescente compulsão para controlar-se e
+ moderar-se torna-se uma “marca de distinção” a mais, que é imediatamente
+ imitada abaixo e difundida com a ascensão de classes mais numerosas. E aqui,
+ como nas precedentes curvas de civilização, a admoestação “Isso não se faz”,
+ com a qual a moderação, o medo e a repugnância são inculcados, só muito depois
+ é ligada, como resultado de certa “democratização”, a uma teoria científica,
+ com um argumento que se aplica por igual a todos os homens, qualquer que seja
+ sua posição ou status. O impulso primário a essa lenta repressão de uma
+ inclinação que antes era forte e geral não vem da compreensão racional das
+ causas das doenças, mas — conforme será discutido em detalhe mais adiante — de
+ mudanças na maneira como as pessoas vivem juntas na estrutura da sociedade.
+
+ 4. A modificação de hábito de escarrar e, finalmente, a eliminação mais ou
+ menos completa de sua necessidade constitui um bom exemplo da maleabilidade da
+ vida psíquica. Pode ser que essa necessidade tenha sido compensada por outras
+ (como, por exemplo, a necessidade de fumar) ou debilitada por certas mudanças
+ na dieta. Mas é certo que o grau de supressão que se tornou possível neste caso
+ não aconteceu no tocante a muitas outras inclinações. A tendência a escarrar,
+ como a de examinar o esputo, mencionada nesses exemplos, é substituível. Ela se
+ manifesta agora apenas em crianças e em análise de sonhos, e sua eliminação é
+ vista no riso específico que nos sacode quando “essas coisas” são mencionadas
+ abertamente.
+
+ Outras necessidades não são tão substituíveis ou maleáveis na mesma extensão. E
+ isto coloca a questão do limite da transformabilidade da personalidade humana.
+ Sem dúvida ela é submissa a certas fidelidades que podem ser chamadas
+ “naturais”. O processo histórico modifica-a dentro desses limites. O grau em
+ que a vida e o comportamento humanos podem ser moldados por processos
+ históricos não foi ainda analisado em suficiente detalhe. De qualquer modo,
+ tudo isso mostra, mais uma vez, como processos naturais e históricos se
+ influenciam mútua e inseparavelmente. A formação de sentimentos de vergonha e
+ asco e os avanços no patamar da delicadeza são simultaneamente processos
+ naturais e históricos. Essas formas de emoções são manifestações da natureza
+ humana em condições sociais específicas e reagem, por sua vez, sobre o processo
+ sócio-histórico como um de seus elementos.
+
+ É difícil concluir se a oposição radical entre “civilização” e “natureza” é
+ mais do que uma expressão das tensões da própria psique “civilizada”, de um
+ desequilíbrio específico na vida psíquica gerado no estágio recente da
+ civilização ocidental. De qualquer modo, a vida psíquica de povos “primitivos”
+ não é menos historicamente (isto é, socialmente) marcada do que a dos povos
+ “civilizados”, mesmo que os primeiros mal estejam conscientes de sua própria
+ história. Não há um ponto zero na historicidade do desenvolvimento humano, da
+ mesma forma que não o há na socialidade, na interdependência social dos homens.
+ Nos povos “primitivos” e “civilizados”, observam-se as mesmas proibições e
+ restrições socialmente induzidas juntamente com suas equivalentes psíquicas,
+ socialmente induzidas: ansiedades, prazer a aversão, desagrado e deleite. No
+ mínimo, por conseguinte, não é muito claro o que se tem em vista quando o
+ chamado padrão primitivo é oposto, como “natural”, ao “civilizado”, como social
+ e histórico. No que interessa às funções psíquicas do homem, processos naturais
+ e históricos trabalham indissoluvelmente juntos.
+
+### Fundo da vida social
+
+ Tal como a maior parte das demais funções corporais, o sono foi sendo
+ transferido para o fundo da vida social. [...] Suas paredes visíveis e
+ invisíveis vedam os aspectos mais “privados”, “íntimos”, irrepreensivelmente
+ “animais” da existência humana, à vista de outras pessoas.
+
+ [...]
+
+ Uma camisola especial começou a ser adotada lentamente, mais ou menos na
+ ocasião em que acontecia o mesmo com o garfo e o lenço. Tal como outros
+ “implementos de civilização”, espalhou-se de forma bem gradual pela Europa. E,
+ como eles, era símbolo de uma mudança decisiva que ocorria nessa época nos
+ seres humanos. Aumentava a sensibilidade com tudo aquilo que entrava em contato
+ com o corpo. A vergonha passou a acompanhar formas de comportamento que antes
+ haviam estado livres desse sentimento.
+
+ [...]
+
+ Neste particular, também, houve certa reação e relaxação desde a guerra. Isto
+ esteve claramente ligado à crescente mobilidade da sociedade, à difusão dos
+ esportes, a excursões e viagens, e também à separação relativamente cedo dos
+ jovens da comunidade familiar. A transição da camisola para o pijama — isto é,
+ para um trajo de dormir mais “socialmente apresentável” — constitui um sintoma
+ desta situação. A mudança não é, como se pensa algumas vezes, apenas um
+ movimento de retrogressão, uma diminuição dos sentimentos de vergonha ou
+ delicadeza ou, quem sabe, uma liberação e descontrole de ânsias instintivas,
+ mas o desenvolvimento de uma forma que se ajusta a nosso padrão avançado de
+ delicadeza e da situação específica em que a atual vida social coloca o
+ indivíduo.
+
+ [...]
+
+ As roupas de dormir da fase precedente despertavam sentimentos de vergonha e
+ embaraço exatamente porque eram relativamente informes. Não havia intenção de
+ que fossem vistas por pessoa fora do círculo familiar.
+
+### Ansiedades pelo condicionamento
+
+ “Se for forçado por necessidade inevitável a dividir a cama com outra pessoa…
+ em uma viagem, não é correto ficar tão perto dele que o perturbe ou mesmo o
+ toque”, escreve La Salle (Exemplo D) e: “Você não deve nem se despir nem ir
+ para a cama na presença de qualquer outra pessoa.”
+
+ Na edição de 1774, os detalhes são mais uma vez evitados em todos os casos
+ possíveis. E o tom é visivelmente mais severo: “Se for forçado a dividir a cama
+ com uma pessoa do mesmo sexo, o que raramente acontece, deve manter um rigoroso
+ e vigilante recato” (Exemplo E). Este é o tom da injunção moral. Até mesmo dar
+ uma razão tornou-se penoso para o adulto. Pela ameaça do tom, a criança é
+ levada a associar essa situação a perigo. Quanto mais o padrão “natural” de
+ delicadeza e vergonha parece aos adultos e quanto mais o controle civilizado de
+ ânsias instintivas é aceito como natural, mais incompreensível se torna para os
+ adultos que as crianças não sintam “por natureza” esta delicadeza e vergonha.
+ Necessariamente as crianças tocam repetidamente o patamar adulto de embaraço e
+ — uma vez que não estão ainda adaptadas — transgridem os tabus da sociedade,
+ cruzam o patamar adulto de vergonha, e penetram em zonas de perigo emocionais
+ que o próprio adulto só com dificuldade consegue controlar. Nesta situação, o
+ adulto não explica as exigências que faz em matéria de comportamento. Não tem
+ como fazê-lo adequadamente. Está tão condicionado que se conforma de maneira
+ mais ou menos automática a um padrão social. Qualquer outro comportamento,
+ qualquer desobediência às proibições ou restrições que prevalecem em sua
+ sociedade, implica perigo e uma desvalorização das restrições que ele mesmo se
+ impõe. A conotação peculiarmente emocional tão amiúde ligada a exigências
+ morais, à severidade agressiva e ameaçadora com que são frequentemente
+ defendidas, refletem a ameaça que qualquer desafio às proibições representa
+ para o equilíbrio instável de todos aqueles a cujos olhos o padrão de
+ comportamento da sociedade se tornou mais ou menos uma “segunda natureza”.
+ Essas atitudes são sintomas da ansiedade despertada nos adultos em todos os
+ casos em que a estrutura de sua própria vida instintiva, e com ela sua própria
+ existência social e ordem social onde se radica, é, mesmo remotamente,
+ ameaçada.
+
+ [...]
+
+ a parede entre pessoas, a reserva, a barreira emocional erigida pelo
+ condicionamento entre um corpo e outro cresceram sem cessar. Desde cedo as
+ crianças são treinadas nesse isolamento dos demais, com todos os hábitos e
+ experiências que isto traz.
+
+ [...]
+
+ Com uma certa impotência, o observador do século XIX e, até certo ponto, do
+ século XX, vê-se diante de modelos e regras de condicionamento do passado. E
+ até que compreendamos que nosso próprio patamar de repugnância, nossa própria
+ estrutura de sentimentos, evoluíram — em um processo estruturado — e seguem
+ evoluindo, continua realmente quase incompreensível, do atual ponto de vista,
+ como diálogos como esses pudessem ser incluídos em um livro escolar ou
+ deliberadamente produzidos como material de leitura para crianças. Mas esta é
+ exatamente a razão por que nosso próprio padrão, incluindo nossa atitude em
+ relação às crianças, deve ser compreendido como algo que evoluiu.