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Adds initial books/sociology/ruptura
authorSilvio Rhatto <rhatto@riseup.net>
Wed, 25 Sep 2019 01:46:15 +0000 (22:46 -0300)
committerSilvio Rhatto <rhatto@riseup.net>
Wed, 25 Sep 2019 01:46:15 +0000 (22:46 -0300)
books/sociology/ruptura.md [new file with mode: 0644]

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new file mode 100644 (file)
index 0000000..3c1c5ac
--- /dev/null
@@ -0,0 +1,91 @@
+[[!meta title="Ruptura"]]
+
+## Trechos
+
+    Os únicos que se sustentam são aqueles que não fingem mais governar nada, mas
+    que usam o poder simplesmente para fornecer a parcelas da população o gosto
+    drogado da autorização da violência contra os vulneráveis.
+    
+    -- 11
+
+    Só governos fracos são violentos.  Eles têm de vigiar todos os poros, pois
+    sabem que seu fim pode vir de qualquer lugar. Governos fortes são magnânimos,
+    porque vislumbram tranquila- mente sua perpetuação. O que se contrapõe a nós é
+    fraco e desesperado. Ele cairá. É hora de fazê-lo cair.
+
+    -- 13
+
+        Generais e almirantes tomam o poder. Eles exterminam seus predecessores de
+        esquerda, exilam os opositores, aprisionam os intelectuais dissidentes, sufocam
+        os sindicatos, controlam a imprensa e paralisam toda atividade política. Mas,
+        nesta variante do fascismo de mercado, os che- fes militares tomam distância
+        das decisões eco- nômicas. Eles não planificam a economia nem aceitam suborno.
+        Eles confiam toda a economia a fanáticos religiosos – fanáticos cuja religião é
+        o laissez-faire do mercado (...) Então o relógio da história anda para trás. O
+        mercado é liberado e a massa monetária estritamente controlada. Os créditos de
+        ajuda social são cortados, os trabalha- dores devem aceitar qualquer coisa ou
+        morrer de fome (...) A inflação baixa reduz-se a quase nada (...) A liberdade
+        política estando fora de circula- ção, as desigualdades de rendimentos, consumo
+        e riqueza tendem a crescer.
+    
+    É evidente que as elucubrações de Samuelson a respeito do “fascismo de mercado”
+    se inspiravam no Chile da ditadura de Augusto Pinochet (1973- 1990). Esse
+    regime sucedeu um governo que ten- tava construir o socialismo pela via
+    eleitoral e foi derrubado por uma articulação envolvendo a social- -democracia
+    cristã, grupos terroristas neofascistas, entidades patronais e Washington, num
+    processo que culminou no bombardeio do Palácio de La Moneda em 11 de setembro
+    de 1973. A partir daí, Pinochet aniquilou a oposição com uma brutali- dade
+    poucas vezes vista. O Estado chileno torturou cerca de 30 mil opositores, em
+    centros espalhados por todo o território nacional, e assassinou milhares
+    de pessoas. Apenas assim foi possível impor à população as políticas dos
+    fanáticos do laissez-faire.  Iniciava-se o experimento neoliberal imposto pelos
+    Chicago boys. Após o golpe, esse grupo de econo- mistas, ligados ao teórico e
+    guru Milton Friedman, ocuparia todos os espaços do Estado ditatorial, dos
+    ministérios à presidência do Banco Central.
+
+    No mesmo momento em que o neoliberalismo aparecia como modelo de gestão social
+    nas democracias liberais do Reino Unido de Margaret Thatcher e dos EUA de
+    Ronald Reagan, a ditadura chilena explicitava a linha de fuga para a qual o
+    capitalismo mundial se encaminhava. Essa junção de brutalidade política e
+    neoliberalismo econômico, aplicada inicialmente no Chile, agora se mostra como
+    a tendência generalizada do capitalismo atual e tem no Brasil seu mais recente
+    laboratório. Tal processo ocorre precisamente no momento em que a farsa da
+    livre concorrência foi definitivamente rasgada pelo retorno a práticas de
+    acumulação primitiva, fazendo com que até mesmo a democracia
+    liberal-parlamentar tenda a ser descartada – especialmente aqui, na periferia
+    do capitalismo.
+
+    [...]
+
+    Por isso, segundo Hayek, o único regime totalitário que a América do Sul
+    conheceu até os anos 1980 não teria sido o Brasil dos militares, a Argentina de
+    Videla ou o Chile de Pinochet, mas o governo da Unidade Popular de Allende. A
+    tese implícita era de que um modo de vida e de produção não baseado na
+    propriedade privada dos meios de produção seria a definição mesma de
+    totalitarismo.  Mas esse conceito liberal de liberdade só poderia se impor à
+    base de choques. Afinal, as sociedades não aceitam sem resistência limitar seus
+    desejos e sua inquietude à liberdade de empreender (reservada para alguns). A
+    experiência histórica das lutas por liberdade revela justamente a insistência
+    em livrar a atividade da submissão à forma do trabalho, da ânsia pela igualdade
+    radical e pelo fim da naturalização da exploração, da vontade de liberação do
+    mundo das coisas dos contratos de propriedade. Sendo assim, apenas uma fina
+    engenharia social, que envolveria todas as instâncias do governo e do capital e
+    que mobilizaria tanto o soldado de baixa patente como o burocrata do primeiro
+    escalão, seria capaz de neutralizar esses desejos, criando uma homofonia
+    social.  Embora paradoxal, a liberdade de empreender exige “mais” e não “menos”
+    Estado, que se impõe na forma de repressão sanguinária e vigilância constante.
+
+    [...]
+
+    A aproximação entre Hayek e o principal jurista do Terceiro Reich, Carl
+    Schmitt, não deixa dúvida sobre sua concepção de democracia.
+
+    [...]
+
+    O autoritarismo, portanto, não é um acidente do capitalismo e não é a antítese
+    da democracia burguesa. Ele é parte constitutiva desse modo de gestão de
+    populações. Afinal, foi no esteio da belle époque das grandes potências
+    ocidentais que se consumou o holocausto dos povos coloniais, primeiro
+    laboratório do caos.
+
+    -- 17-25